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terça-feira, 8 de abril de 2008

Simplesmente viver

Tenho percebido a vida adulta me presentear com algumas doçuras. Digo isso porque havia transformado essa fase da minha vida como por demais responsável, dura, monocromática e insossa, principalmente se comparada com a minha infância. Explico-me.
Talvez essa minha concepção seja por nos vermos nessa época "agraciados" com toda a sorte de mazelas que vêm a reboque do que há de melhor a ser vivido também. Se chega a alegria do matrimônio, com ela vem também a fragilidade instável da convivência com alguém a quem entregamos tanto e as vezes conhecemos tão pouco; se vêm os filhos, com eles surgem as noites mal-dormidas, sejam pelas doenças ou pelo espectro de terror sempre presente de ver nossos pequenos aos poucos sendo entregues aos infortúnios de um mundo tão cruel; se o emprego aparece para nos tornar independentes, lembra-nos mensalmente das contas a serem pagas, e assim por diante... Ah, que saudade da infância!
Contudo, de uns tempos para cá, não sei se a minha sensibilidade tem se aguçado ou se é a idade que, precocemente, é claro, já tem me pregado peças de pura senilidade. O fato é que o alvorecer tem sido especial para mim porque não mais só o vejo, mas o escuto sob o gorjeio de muitos pássaros que parecem recepcioná-lo. O ruído dos carros cruzando o asfalto transformou-se repentinamente num barulho semelhante ao das ondas do mar, num indo e vindo constante. E por falar em mar, passei a sentir-me, ao tocar sua superfície na praia, como sendo saudada por cada onda que de mim se aproxima, chamando-me para dele desfrutar em sua imensidão. Voltei ainda a enxergar arco-íris riscando o céu e a contemplar a brancura das nuvens como "bolas" de espuma de barbear...
Não sei o que há comigo. Mas, acho que nem quero mesmo saber. Como também não quero mais voltar a passar os dias sem reverenciar a vida, que, ainda que algumas vezes, seja de uma vileza tão grande, voltou a mostrar-me puerilmente em sua diversidade o que há de melhor em simplesmente viver.

Ana Valéria

2 comentários:

Jessica disse...

Tinha que ser a minha tia, poeta, sempre amante da vida.
Parabéns, mas um texto lindo e inspirador!
Beijo grande.
Teca

Jackie Kauffman disse...

Sabe, Valéria.... é mais sensibilidade sim. Os episódios da vida, e o passar do tempo rebuscam a nossa alma e exaltam a sensibilidade que sempre existiu em nós, mas que estava escondida sob tanto ativismo interior. Amei o texto. Me identifico muito com ele!