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segunda-feira, 28 de abril de 2008

Ensaio de um vôo de Liberdade

Nunca imaginei que fosse tão desafiante ser livre. Não falo da liberdade adquirida com a assinatura da pena de outrem. Falo, sim, do rompimento das próprias amarras; da derrubada dos muros que nos cerceiam psicologicamente e nos mantém estáticos frente aos novos horizontes.
Só posso deduzir que essas cercas emocionais, aparentemente invisíveis, são tão amplas quanto os anos que elas levaram para ser construídas e que não vai ser com um simples “gritinho” de uma cavalgadura numa margem ribeirinha que elas vão ceder.
Cheguei a pensar que, tal como o lobo que assombrava os três porquinhos, tombando as inúmeras casas que os abrigava com um sopro mais forte, castelos emocionais caíssem facilmente, bastando para isso que se enchesse o peito de ar. Ou que a simples mudança de um script pudesse exercer algum poder mágico e redentor numa história dolorosamente restrita.
Mas não é o contemplar de um horizonte largo por cima da cerca que a invalida, tampouco a vontade de ignorá-la que faz com que se pense que ela nunca tenha existido.
A áurea princesa não conseguiu libertar emocionalmente a geração que recebeu as benesses de sua canetada, nem o gesto “petrino” marginal transformou instantaneamente quem se acostumou a sempre pensar de forma provinciana. Isto porque esta “liberdade” foi parida por outros. Mas a autêntica brota do coração daquele que dela é privado; nasce como fruto da necessidade de alteração de um modus vivendi perenizado. E só consegue sonhar voando quem já voou ou quem conhece o sofrimento de tendo asas não poder usá-las.
As minhas já estão prontas. Consigo contemplar penas novas que durante tanto tempo foram podadas para manter-me presa ao chão. Os músculos, ainda que só recentemente com vigor novo, já aparentam ter condições de sustentar meu corpo solto no ar. Mas a mente precisa de mais do que isso.
É certo que a beira do cativeiro, que me fizeram acreditar ser um ninho, agora se insinua sem pudor e a visão de mais do que galhos secos e envergados me convida para um amplo vôo.
E eu nem sabia que podia voar...!
Contudo sei que o medo de altura ainda está presente. Olhar tanto para baixo como para cima estremece minha estrutura. Talvez por que me acostumaram a pensar que o mundo tem poucos centímetros ou que voar não é para os da minha espécie.
Mas ouso pensar e desejar.
Sinto o cheiro do azul me chamando para um novo existir, desafiando tudo o que eu conheço. Melhor do que a segurança de um abrigo cinzento.
E se depois de enxergar além dos limites a mim impostos a tentativa de alçar novos ares, enfrentando todos os temores que decorrem do inusitado, não é legítima, ainda assim escolho morrer na queda que ter asas que nunca ensaiaram planar.
Por fim, agora em minha alma livre, mesmo ainda aprisionada, me recuso a simplesmente voltar a ciscar.


Ana Valéria

9 comentários:

Facundo disse...

ummmm... senti um cheirinho de Leonardo Boff nesse seu texto(muito massa por sinal).

"É certo que a beira do cativeiro, que me fizeram acreditar ser um ninho, agora se insinua sem pudor e a visão de mais do que galhos secos e envergados me convida para um amplo vôo.
E eu nem sabia que podia voar...!"

É minha amiga, posso dizer que me solidarizo com o que vc sente. A maior prisão de fato é o da mente. Mas quando vc descobre a "matrix", sabe que pode ir além, fugir da caverna(alusão a alegoria da caverna), ai sim, estamos prontos a encarar todas as consequências desta "descoberta". E vai ser algo tão maravilhoso que o fato de "ser jogado pra ser devorado por leões numa arena" vai ser demasiado compensador.

Um abraço minha professora de cartas paulinas predileta!

:-)

ansof7 disse...

É professora, a liberdade é um processo doloroso!
Muitas vezes incompreendido, inacabado ou até sem graçapara quem naum sebe lidar com ela!
A liberdade é para todos mas não em todos!!
ha o Jeorge naum poderia perder a oportunidade de falar no Matrix hehehehehehe
e a bajjulação? kkkkkkkk
Massa Valéria...
Abraç...

Wendel Cavalcante disse...

Voar faz um bem danado! heheheheh!!!
Alguém só (re)descobre isso quando se permite olhar para o horizonte!
Eis a imensidão diante daqul@s que não têm medo!
Abração!

Allison Ambrosio disse...

Estou feliz por você! Apesar de ser uma preparação (?), já me anima pensar que você está pronta para o vôo.

Faz mais de 25 anos que li Fernão Capelo Gaivota eme lembro que a história me impressionou bastante. Podem falr o que quizerem sobre aquela gaivotinha atrevida que não quis reduzir sua existência a um mero ciscar de sementes no porto.

Ele fez uma afirmação que salva o livro: "Todos nós somos um pensamento da Grande Gaivota; um pensamento de amor e liberdade".

Ame. Liberte-se. Seja feliz!

Com carinho.

Allison Ambrosio disse...

A propósito: hoje é o dia da Abolição da Escravatura!!!!

Jackie Kauffman disse...

O medo e a solidão de escolher voar é algo assustador. Mas em contraponto a esse medo há muitas outras sensações e sentimentos a se viver qdo alçarmos vôo. E nunca saberemos quais são se não voarmos.Nunca saberíamos o que perdemos, se não tivéssemos experimentado. Ainda há muito a viver, ainda há muito a descobrir e estou feliz que vc está disposta a se jogar.Força...Continua...

Lindo texto.

Wendel Cavalcante disse...

Quando é que você volta?
Abração!

Cristiane Moraes disse...

Que nessa nova aventura de voar você possa alcançar novos horizontes e mundos completamente diferentes dos que você já conhece, e que eles te tragam cada vez mais inspiração. Sou tua fã. Bjim.

Allison disse...

Valéria,

Li novamente seu texto e, novamente, me senti encantado. A beleza das frases, o desenvolvimento das idéias que acabam por nos conduzir ao sonho, ao sentimento que as produziu.

Você é uma poetisa, enriquecida até por esses medos de voar, por essas mudanças de paradigmas na construção desse seu novo mundo.

Fico feliz ao notar que você está buscando tirar o melhor de todas as experiências que está vivendo. Sei que isso se converterá em crescimento para você, alegria para todos nós e enriquecimento para a poesia.

SEu amigo e fã incodicional,

Allison.