Apenas um lugar para a gente pensar junto...

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

Vida Injusta

Diante de algumas circunstâncias percebidas essa semana, andei matutando em quantas vezes nos deparamos com situações que são completamente inexplicáveis pelo senso de justiça. Por exemplo, quem nunca se viu perplexo diante de uma morte prematura de uma existência em pleno viço? Ou de uma história claramente injusta, mas perpetuada, sem chance de mudança? Ainda outro dia escutei sobre uma moça que mal viu a vida passar porque teve que se dedicar a cuidar de seu pai até que esse morresse, em seguida passou a cuidar da mãe que logo caiu enferma de morte, e, por último,após enterrá-la, ela mesma adoeceu e morreu.  Como podemos ainda encarar a realidade quando ela se mostra tão cruel e sem uma solução que nos aplane os ânimos e mesmo assim acreditar que vai dar tudo certo? 
Diante de situações como essas, apenas me ocorre as palavras do apóstolo Paulo: "Se a nossa esperança em Cristo se limita apenas a esta vida, somos os mais infelizes de todos os homens" (1Cor 15:19), porque definitivamente de justa essa existência não tem nada. E não adianta recorrer aos céus, aos deuses, ou seja lá a quem for, porque diariamente vemos a prosperidade do mal e o insucesso dos bons; ricos corruptos gozando uma vida de benesses e pobres honestos padecendo à míngua pelo mínimo necessário.
Há um provérbio muito citado para explicar alguns eventos que nos ocorrem: "Aqui se faz, aqui se paga" ou "Quem semeia vento colhe tempestades", mas e quando somos as mais corretas pessoas que podemos ser, e, mesmo assim, somos surpreendidos por furacões que nos destroem tudo? Como ficam essas "certezas"? E quando somos os melhores filhos, ou pais, ou cônjuges, ou profissionais e nos vemos no momento seguinte vivendo um inusitado estilo de vida que alguém, por seu extremo egoísmo ou inconsequência, "escolheu" por nós? Você ainda vai querer me convencer que estou somente vivendo o que escolhi???
No entanto, vale recordar que o mesmo Paulo afirma mais adiante, dando-me a esperança que posso até não ver o resultado certo e inequívoco de uma vida reta aqui, mas que o verei depois: "Mas, de fato, Cristo ressuscitou dentre os mortos, sendo ele as primícias dos que dormem".(1 Cor 15:20). Há mais, muito mais, do que essa existência aqui! E isso não é escapismo ou alienação é a resposta cristã, já que não creio que seja mais justo pensar que vivo um carma de uma existência passada, por ser cruel demais ver-me pagando por algo que nem mesmo tenho consciência de ter feito - aí já extrapola meu senso de equidade. Ele ressuscitou e eu, um dia, o seguirei.
Encaremos os fatos: a vida é dura e muitas vezes injusta, sim. Nem sempre veremos o bem triunfar. Contudo, àqueles que têm a certeza de verem aqui o resultado bom e fiel de uma vida sem excessos ou de escolhas bem feitas tenho uma palavra: é melhor contar com a sorte também, mas aos demais posso afirmar: nem sempre irão colher flores, mas em Deus suas esperanças jamais serão frustradas, independente do que a vida lhes proporcionar.

sábado, 16 de outubro de 2010

A Ditadura da Felicidade

 "- Deixe fulano(a) ser feliz!"
Quantas vezes já ouvi essa mesma frase como uma imposição ao momento que alguém estaria vivendo. Contudo, o que questiono é essa ideia de felicidade. O que é ser feliz? Qual a sensação que determina que algo tornou-se a razão da felidade de alguém?
Pensando assim, é fácil percebermos a lista de motivos que hoje são propagados como úteis e imprescindíveis para tal sensação: a posse de algum artigo eletrônico que acabou de chegar no mercado; uma viagem para lugares desconhecidos; a sensação de algo inusitado que provocaria emoções novas e prazerosas, o êxtase de um momento com alguém, e assim por diante. Mas então volto à pergunta: por que tais coisas ou situações fariam alguém feliz? e, por que isso é felicidade? Se coisas ou situações como essas trazem de fato esse propagado gozo à alma - que seria definido como felicidade - precisamos concordar que ser feliz é por demais efêmero e fugaz. Dessa forma é compreensível a busca incessante da aquisição delas como um cachorro procurando seu próprio rabo, em um processo de constante busca e frustração.
Na contramão dessa ordem, ouvimos da boca de Jesus que felizes são os que choram, os que são perseguidos, os que têm fome e sede de justiça, os misericordiosos, os pacificadores... ou seja, segundo seus parâmetros o ser feliz está em deixar de ter, apenas sendo, e não no contrário. E é também a esses que é prometida uma vida de qualidade e realização plena - não seria isso a felicidade? Que paradoxo!!!
Certa vez, Madre Teresa de Calcutá afirmou ao comentar sobre alguém: "Este é tão pobre que só pode dar o que tem: dinheiro!", porque desprovido do padrão mais humanitário da vida: amar. Nós somos os únicos seres vivos que temos no outro o pleno sentido da existência. No outro está a verdadeira humanidade.
Vivemos uma ditadura da felicidade, uma imposição de que devemos estar buscando constantemente esse instante, tornando-nos o alvo primeiro e último de  tudo, mas esse, ao invés de nos proporcionar um estado pleno de realização interior, nos leva a uma procura do sempre inatingível porque passageiríssimo, daí precisarmos de um novo instante e mais outro e mais outro... Porém, essa insaciabilidade apenas gira uma roda de busca desenfreada, ao mesmo tempo em que enriquece àqueles que vivem do usufruto de seus idílicos produtos, tão necessitados quanto nós.
Se ser feliz é "ter" ou "estar" ininterruptamente, a vida vale somente o momento que se vive. Somos o centro de tudo. Ao consumo!
De fato, "Deixe fulano(a) ser feliz", até que venha o próximo segundo. Pobre de nós!

Um abraço.

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Contra ou a favor?

A figura de Satanás ou Diabo como o antagonista de Deus, surgiu no imaginário judaico aproximadamente por volta de 600 aC, durante o domínio do Império Persa. Antes disso o mal não era visto de forma dualista e personificada, mas como vindo, da mesma forma que o bem, de Deus. Tudo tinha origem nEle. Era Ele quem trazia tanto as coisas boas, como as más, tanto a chuva como a estiagem, tanto a colheita como a infertilidade dos campos... Os profetas do Antigo Testamento atestam isso inúmeras vezes.
Etimologicamente falando, o nome Satanás quer dizer "adversário", "opositor", porque se opõe a Deus. A palavra Diabo vem de diábolo, oposto de símbolo, e tem como sentido aquele que separa, que diverge ou que vai contra. Assim, a partir dessa compreensão, gostaria de analisar o elogio e a repreensão de Jesus a Pedro em um episódio narrado em um dos Evangelhos.
Vemos no capítulo 16, a partir do v. 16 de Mateus, o seguinte texto: Mas vós, continuou ele, quem dizeis que eu sou? Respondendo Simão Pedro, disse: Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo. Vamos entender o contexto: Jesus havia acabado de interrogar os apóstolos sobre quem Ele seria e ouve da boca daquele discípulo que Ele seria o Cristo, o Filho do Deus vivo, ao que é prontamente elogiado por ter tido a iluminação do próprio Espírito de Deus. Contudo, veja que alguns versículos depois este mesmo Pedro falastrão, é agora repreendido por Jesus, levando o nome de Satanás, por ter reprovado o fato de que Ele precisaria sofrer até morrer. E Pedro, chamando-o à parte, começou a reprová-lo, dizendo: Tem compaixão de ti, Senhor; isso de modo algum te acontecerá. Mas Jesus, voltando-se, disse a Pedro: Arreda, Satanás! Tu és para mim pedra de tropeço, porque não cogitas das coisas de Deus, e sim das dos homens. Parece que Pedro não entendia mesmo nada até aquele momento!
O que Jesus queria mostrar, dentro da compreensão judaica mais antiga, é que Pedro, por não entender das coisas de Deus, mas sim das dos homens, havia ocupado o papel de Satanás com aquela sua abordagem - não que tenha incorporado alguma entidade maligna - por isso não há nenhuma prática de exorcismo com expulsão de demônios, como poderia ser esperado por aqueles que veem o Diabo em forma de gente em tudo (vendo dessa perspectiva, certamente Jesus não daria nenhum ibope a muitas igrejas hoje!). Pedro, com sua peculiar impetuosidade e grande ignorância, se coloca como opositor aos planos de Deus e, por isso, pedra de tropeço. Meteoricamente vai do céu ao inferno em poucos minutos.
Veja bem, fica evidente que Pedro "incorporou" a personalidade do Diabo ou de Satanás quando se opôs aos ideais de Deus, o que pode acontecer com qualquer um de nós. Não há meios termos: ou se é contra ou a favor, ou trabalhamos em prol de Deus ou contra Ele, inclusive no mundo.
Sociologicamente falando, os desmandos sociais que existem não são fruto de uma entidade maligna agindo no meio de nós (afirmar isso é uma irresponsabilidade ou uma resposta ideológica para beneficiar alguns), mas sim fruto da nossa "satanicidade". Associar tudo maniqueísticamente ao Diabo só colabora com o status quo porque nos exime do compromisso de fazer um mundo melhor, deixando para quem quiser esse papel.
Podemos sim contribuir para a expansão dos ideais de paz, justiça e amor, quando nos tornamos instrumentos de Deus na compreensão da responsabilidade que temos com as atitudes certas. Por outro lado, se não o fazemos agimos diabolicamente, mesmo que como inocentes úteis, para que o mal se eternize a cada momento.
Provocando um pouquinho: o que ouviríamos de Jesus se Ele nos interrogasse da mesma forma que aos apóstolos: elogio ou repreensão? Por quem estamos sendo usados: pelo Espírito de Deus ou pelo Diabo?
A Bíblia afirma que o mundo jaz no maligno, mas não porque o Capeta tomou as rédeas daqui, mas porque talvez estejamos deixando para os outros a responsabilidade que é nossa permitindo que o caos prevaleça.
Céu ou inferno, de onde estamos mais perto? Espírito de Deus ou Satanás, quem está falando mais alto?
Ainda há tempo para mudanças. Aquele Pedro que foi elogiado e criticado por Jesus, que ora prometeu ser seu maior seguidor e momentos após o traiu triplamente, encontrou seu papel como um dos maiores líderes do cristianismo, revolucionando o mundo, sendo capaz de morrer pela causa que passou a acreditar.
Assim, há uma luz no fim do túnel: a situação não está definida. Ainda há muito a acontecer e o papel que assumiremos depende exclusivamente de nós.


Um abraço.

*Publicado no Jornal OPOVO em 20/11/2010 com o título '"Satanicidade" nossa de cada dia'.
http://www.opovo.com.br/app/opovo/espiritualidade/2010/11/20/noticiaespiritualidadejornal,2067344/a-satanicidade-nossa-de-cada-dia.shtml