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segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Contra ou a favor?

A figura de Satanás ou Diabo como o antagonista de Deus, surgiu no imaginário judaico aproximadamente por volta de 600 aC, durante o domínio do Império Persa. Antes disso o mal não era visto de forma dualista e personificada, mas como vindo, da mesma forma que o bem, de Deus. Tudo tinha origem nEle. Era Ele quem trazia tanto as coisas boas, como as más, tanto a chuva como a estiagem, tanto a colheita como a infertilidade dos campos... Os profetas do Antigo Testamento atestam isso inúmeras vezes.
Etimologicamente falando, o nome Satanás quer dizer "adversário", "opositor", porque se opõe a Deus. A palavra Diabo vem de diábolo, oposto de símbolo, e tem como sentido aquele que separa, que diverge ou que vai contra. Assim, a partir dessa compreensão, gostaria de analisar o elogio e a repreensão de Jesus a Pedro em um episódio narrado em um dos Evangelhos.
Vemos no capítulo 16, a partir do v. 16 de Mateus, o seguinte texto: Mas vós, continuou ele, quem dizeis que eu sou? Respondendo Simão Pedro, disse: Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo. Vamos entender o contexto: Jesus havia acabado de interrogar os apóstolos sobre quem Ele seria e ouve da boca daquele discípulo que Ele seria o Cristo, o Filho do Deus vivo, ao que é prontamente elogiado por ter tido a iluminação do próprio Espírito de Deus. Contudo, veja que alguns versículos depois este mesmo Pedro falastrão, é agora repreendido por Jesus, levando o nome de Satanás, por ter reprovado o fato de que Ele precisaria sofrer até morrer. E Pedro, chamando-o à parte, começou a reprová-lo, dizendo: Tem compaixão de ti, Senhor; isso de modo algum te acontecerá. Mas Jesus, voltando-se, disse a Pedro: Arreda, Satanás! Tu és para mim pedra de tropeço, porque não cogitas das coisas de Deus, e sim das dos homens. Parece que Pedro não entendia mesmo nada até aquele momento!
O que Jesus queria mostrar, dentro da compreensão judaica mais antiga, é que Pedro, por não entender das coisas de Deus, mas sim das dos homens, havia ocupado o papel de Satanás com aquela sua abordagem - não que tenha incorporado alguma entidade maligna - por isso não há nenhuma prática de exorcismo com expulsão de demônios, como poderia ser esperado por aqueles que veem o Diabo em forma de gente em tudo (vendo dessa perspectiva, certamente Jesus não daria nenhum ibope a muitas igrejas hoje!). Pedro, com sua peculiar impetuosidade e grande ignorância, se coloca como opositor aos planos de Deus e, por isso, pedra de tropeço. Meteoricamente vai do céu ao inferno em poucos minutos.
Veja bem, fica evidente que Pedro "incorporou" a personalidade do Diabo ou de Satanás quando se opôs aos ideais de Deus, o que pode acontecer com qualquer um de nós. Não há meios termos: ou se é contra ou a favor, ou trabalhamos em prol de Deus ou contra Ele, inclusive no mundo.
Sociologicamente falando, os desmandos sociais que existem não são fruto de uma entidade maligna agindo no meio de nós (afirmar isso é uma irresponsabilidade ou uma resposta ideológica para beneficiar alguns), mas sim fruto da nossa "satanicidade". Associar tudo maniqueísticamente ao Diabo só colabora com o status quo porque nos exime do compromisso de fazer um mundo melhor, deixando para quem quiser esse papel.
Podemos sim contribuir para a expansão dos ideais de paz, justiça e amor, quando nos tornamos instrumentos de Deus na compreensão da responsabilidade que temos com as atitudes certas. Por outro lado, se não o fazemos agimos diabolicamente, mesmo que como inocentes úteis, para que o mal se eternize a cada momento.
Provocando um pouquinho: o que ouviríamos de Jesus se Ele nos interrogasse da mesma forma que aos apóstolos: elogio ou repreensão? Por quem estamos sendo usados: pelo Espírito de Deus ou pelo Diabo?
A Bíblia afirma que o mundo jaz no maligno, mas não porque o Capeta tomou as rédeas daqui, mas porque talvez estejamos deixando para os outros a responsabilidade que é nossa permitindo que o caos prevaleça.
Céu ou inferno, de onde estamos mais perto? Espírito de Deus ou Satanás, quem está falando mais alto?
Ainda há tempo para mudanças. Aquele Pedro que foi elogiado e criticado por Jesus, que ora prometeu ser seu maior seguidor e momentos após o traiu triplamente, encontrou seu papel como um dos maiores líderes do cristianismo, revolucionando o mundo, sendo capaz de morrer pela causa que passou a acreditar.
Assim, há uma luz no fim do túnel: a situação não está definida. Ainda há muito a acontecer e o papel que assumiremos depende exclusivamente de nós.


Um abraço.

*Publicado no Jornal OPOVO em 20/11/2010 com o título '"Satanicidade" nossa de cada dia'.
http://www.opovo.com.br/app/opovo/espiritualidade/2010/11/20/noticiaespiritualidadejornal,2067344/a-satanicidade-nossa-de-cada-dia.shtml

Um comentário:

Alaercio Flor disse...

Belíssimo texto teológico,bom para doutrinar quem não conhece que o mal e o bem tem uma origem,que o Lucifer é o pai da mentira, que a Verdade é Jesus tão somente....