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quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

Daltonismo Religioso (II) *

Desenvolvendo mais um pouquinho o tema do daltonismo.
Creio que você concorda comigo que Jesus não deixou nada escrito. A única vez que o vimos escrevendo foi no episódio da mulher adúltera trazida pelos religiosos, e o palco de escrita era a areia. Nada mais efêmero! Mas, por que estou mencionando isso? Para lembrar que todos os relatos neotestamentários estão direta ou indiretamente relacionados com seus discursos, mas nunca saíram de sua própria pena. Nunca, absolutamente jamais, foram registrados por ele.
Se compreendemos que tudo que se passa ao nosso redor sofre um processo de interpretação e que esse está proporcionalmente relacionado ao que entendemos de mundo, nada está isento ao nosso "daltonismo interpretativo". Compreende?
Ora, some-se às palavras de Jesus o conhecimento de mundo de cada um dos apóstolos e você terá uma compreensão específica ao que fora dito, como uma espécie de encaixe perfeito ao quebra-cabeça de cada vida ali.
Não estou afirmando que necessariamente as compreensões obtidas por eles estejam em conflito ao que foi ensinado por Cristo se colocadas lado a lado, mas sim que não se pode extrair do que foi entendido pelos evangelistas as precompreensões que cada um trazia consigo.
É mais do que claro que um homem letrado como Mateus (cobrador de impostos) não tem a mesma percepção de vida que um rude pescador chamado Pedro, porque ambos têm suas experiências, seus percalços e desafios que delinearam suas personalidades distintas. Daí a abordagem de Jesus ser apropriada a cada homem porque fala às necessidades específicas de cada um, como ainda hoje é.
Sentindo a urgência de que as suas palavras passassem às gerações seguintes os evangelhos foram escritos. Sugiram então vários registros, e dentre esses alguns chegaram até nós, contudo, todos feitos a partir de mãos de homens que viveram suas próprias experiências e que fizeram, portanto, suas próprias interpretações e pontes a partir do que fora ouvido e vivenciado.
Toda essa minha discussão é para mostrar que de maneira alguma podemos nos prender radicalmente aos escritos. Como já mencionei, em lugar nenhum há palavras ipsis literis de Cristo, por mais que elas convirjam em textos paralelos. Portanto, nos atermos a picuinhas literárias para discutirmos nossas diferenças é tão farisaico quanto foi nos tempos em que ele andou entre nós. Suas palavras foram justamente agudas e contundentes contra os que pretendiam fazer dest sentenças de acusação. Longe de fronteiras eclesiásticas, guetos religiosos ou barricadas de abrigo contra os infiéis, seus ensinamentos extrapolaram esses limites.
Deus é maior que a Bíblia, porque esta o limita; maior que palavras religiosas porque estas são infiéis ao tentar retratá-lo. Maior do que qualquer compreensão.
Se pararmos de fazê-lo caber dentro de nossos conceitos interpretativos vesgos certamente muita coisa mudará dentro da cada um de nós. Posso até continuar vendo de maneira daltônica, mas terei consciência que eu e não o outro é que precisa ver-se como alguém a estar sempre adequando a visão.
Mais sensato seria se percebêssemos nosso olhar como restrito à pequenez de nosso mundo. Somos, cada um de nós, universos a parte, construídos por nós mesmos.
Dentro dessa perspectiva facetada da vida, ajudaríamos muito mais se ao invés de Livros usássemos óculos, respeitando-nos como partes de um todo muito maior.
A humanidade agradeceria.

* Texto publicado no jornal O Povo, na coluna Espiritualidade, no dia 02 de abril de 2011.
http://www.opovo.com.br/app/opovo/espiritualidade/2011/04/02/noticiaespiritualidadejornal,2120935/daltonismo-religioso-ii.shtml

8 comentários:

Anônimo disse...

O nome do seu blog faz jus à sua pessoa: realmente vc pensa bem "pouco". Vc já percebeu que de tanto pensar tão pouco, vc está sempre contradizendo a Palavra de Deus? e o pior: pregando isto para as pessoas que visitam o seu blog? Vc já pensou na má responsabilidade que vc está construindo? Que em defesa do seu EU,atacam o que Deus deixou na Sua Palavra de mais precioso: "Amarás o Senhor teu Deus

Anônimo disse...

de todo o teu coração , de toda tua alma e de todo teu entendimento e a teu próximo como a tí mesmo." Isto é, o EU de vcs(O SEU E O DAS PESSOAS QUE DEFENDEM COM UMAS E DENTES TANTO O "EU" DE SÍ PRÓPRIAS) é defendido tão fortemente que passam por cima de um mandamento de Deus tão lindo.

Anônimo disse...

Corrigindo: unhas, no lugar de UMAS.

Anônimo disse...

É REALMENTE VEJA O QUE VC ANDA PENSANDO... Pois quem ama a Deus de todo seu coração, de toda sua alma e de todo seu entendimento e ao próximo como a sí mesmo, não pensa e escreve o que você escreve.

Anônimo disse...

É realmente veja o que vc anda pensando... Pois quem ama a Deus de todo seu coração, de toda sua alma e de todo seu entendimento e ao próximo como a sí mesmo, não pensa e escreve o que você escreve.

Só pensando um pouco disse...

Senhor Anônimo, para quem se vê no papel de defensor de Deus você poderia pelo menos se identificar, assim seu comentário poderia ser levado mais a sério. Outra coisa: você tem todo o direito de discordar do que escrevo, mas pelo menos venha com argumentos de quem pensa um pouco mais do que eu.

Alaercio Flor disse...

Coitado do senhor anõnimo...

Alaercio Flor disse...

Eu,Alaércio Flor, fosse o autor desse diario eletronico não daria uma linha de espaço a quem se esconde no anonimato...E se ele discorda ,ou ela e se esconde é porque não tem segurança nem coragem de assumir seus proprios depoimentos e pensamentos consigo mesmo diante de Deus que tem a misericordia de compreender a todos e até quem põe suas duvidas e incertezas à tona...Este anõnimo,no fundo gostaria de ser autor dos textos da Ana Valerias Moraes e é um leitor,já um coautor....Que bom.